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A Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP, em parceria com o Conselho Federal de Medicina – CFM, organiza o Setembro Amarelo, desde 2014, em todo o Brasil.

Anualmente são registrados, no país, aproximadamente 12 mil suicídios e 1 milhão no mundo. A prevenção e a redução desses números são os objetivos da campanha e nós, da EternamenteSou, apoiamos esta causa. 

Você sabia que o suicídio é uma das três causas de morte mais frequentes no mundo e varia conforme o sexo e a idade?

O Brasil é o oitavo país em número de suicídios. De acordo com a cartilha  publicada pelo Ministério da Saúde, com dados obtidos pelo Sistema de Informação sobre Mortalidade, em 2017, 69% das tentativas de suicídio são cometidas por mulheres e 31% por homens, entretanto, a taxa de mortalidade entre homens é 3,6 vezes maior.

A revista científica americana Pediatrics, publicou que, entre jovens lésbicas, gays e bissexuais, o risco de tentativa de suicídio é 20% maior em ambientes que não oferecem apoio da família em comparação aos lares que oferecem amparo. O mesmo artigo aponta que o suicídio entre jovens homossexuais é 5 vezes maior quando comparado aos heterossexuais. 

Ainda segundo a cartilha publicada pelo Ministério da Saúde, a mortalidade é mais prevalente em idosos com mais de 70 anos, o que representa uma taxa média de 9 mortes por 100 mil habitantes no período de 2012 a 2017. A taxa média nacional é 5,5 por 100 mil.

A população acima de 60 anos tem aumentado no Brasil. De acordo com o IBGE,  18,8% entre 2012 e 2017. Este crescimento implica em novas demandas que exigem posicionamento das políticas sociais e também nas ações relacionadas à saúde desta população.

Até aqui vimos muitos dados, porém agora vamos tratar do tema de forma mais humana e com enfoque na orientação de prevenção.

Doenças mentais e o suicídio em idosos

A referência bibliográfica deste tema revela que doenças e transtornos mentais estão altamente associados com suicídios em pessoas idosas. Entre as enfermidades da mente, destacam-se a depressão, transtorno bipolar, transtornos mentais relacionados ao uso de álcool e outras substâncias e transtornos de personalidade. 

Para buscar uma melhor compreensão deste tema, o blog EternamenteSou entrevistou o Dr. César Carvalho, 33, médico especializado em psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Confira a seguir:

Dr. César, existe maior vulnerabilidade emocional na população LGBTQIA+?

Entendemos que a população LGBT é exposta a ambientes hostis, onde vivenciam a discriminação e assédio devido a sua sexualidade desde a infância e adolescência, com particular relevância para o ambiente escolar, além de estarem mais sujeitos a níveis mais altos de violência, incluindo abuso sexual e físico, quando comparadas a pessoas heterossexuais.

Na sua opinião, como podemos contribuir para a prevenção do suicídio na nossa população?

Para pensarmos no modelo de prevenção com eficácia é necessário reconhecer epidemiologicamente o comportamento suicida entre as minorias sexuais. A partir dessas informações, seria possível identificar com maior especificidade a heterogeneidade da prevalência e fatores associados, o que pode subsidiar a construção de políticas públicas mais eficazes, que incluam estratégias de prevenção e rastreamento de risco capazes de reduzir a morbidade e a mortalidade relacionadas ao suicídio nessa população vulnerável.

Quais são os principais fatores de risco do comportamento suicida na população LGBT?

Violência, questões de saúde mental,  transfobia, abuso sexual, isolamento, rejeição, discriminação e bullying. Já os principais fatores de proteção são: reconhecimento da identidade de gênero, apoio social e familiar.

Percebe-se que as minorias sexuais são mais propensas ao comportamento suicida quando comparadas a população geral, com destaque a população transexual que apresenta maiores prevalências. 

Entre os idosos, quais são as principais causas de comportamento suicida? 

No que concerne a população idosa, o suicídio é uma importante causa de mortalidade e não tem sido encarado adequadamente pelas autoridades sanitárias.

Em relação aos fatores biopsicossociais o casamento reforçado por filhos parece diminuir o risco de suicídio, enquanto os solteiros, divorciados e viúvos apresentam maior risco, já que a viuvez recente, principalmente no primeiro ano que segue a morte do cônjuge é a fase mais propícia para a atitude suicida.

Doenças físicas concomitantes, principalmente as invalidantes, como os quadros demenciais ou as que cursam com dor importante, por exemplo, as neoplasias, também trazem maior risco.

Em relação ao método, homens tendem a se utilizar de maneiras mais violentas, enquanto as mulheres optam por overdose medicamentosa.

Devemos estar cientes dessas questões ao analisar o comportamento suicida nessa população. É importante dar atenção para essas pessoas nas seguintes situações:  transição do trabalho para aposentadoria, perda de status, perdas familiares, doenças crônicas degenerativas, perda da autonomia , impotência sexual, quadros depressivos ou outras questões de saúde mental.

Na sua opinião, qual é a melhor forma de prevenção do suicídio na população LGBT idosa?

A participação da família e da rede de amigos é muito importante na prevenção do suicídio entre idosos, que muitas vezes se sentem abandonados pela família e pela sociedade. Assim como atenção do sistema de saúde para diagnóstico e manejo adequado do adoecimento físico e mental nesta população.

"Sabemos que ser forte todos os dias é difícil, e que muitas vezes pensamos que a nossa dor, problemas e angústias não terão fim. É nesse momento que devemos buscar ajuda, porque compartilhando nossas inseguranças e medos, oferecemos ao outro a possibilidade de exercitar a empatia e acolher nosso sofrimento. Muitas vezes só o simples fato de ouvir o relato de uma pessoa é suficiente para amenizar os anseios e adversidades da vida."
Dr César Carvalho
médico psiquiatra

Outros fatores

O suicídio em idosos apresenta outros fatores importantes que devem ser considerados, divididos entre fatores psicológicos, aspectos sociais e condições de saúde limitantes.

Entre os aspectos psicológicos, podemos destacar a perda de entes queridos, pouca resiliência, humor instável ou personalidade impulsiva, desespero, desesperança e desamparo.

 No aspecto social, demandam maior atenção os homens com idade entre 15 e 30 anos e acima dos 65 anos, sem filhos, que vivem em áreas urbanas, encontram-se em situação de desemprego ou estão aposentados e possuem pouco convívio social. Além deles, populações especiais como indígenas, adolescentes e pessoas em situação de rua.

 Neste entendimento, a condição de saúde limitante é também um fator relacionado com suicídios em pessoas idosas. As principais causas são doenças orgânicas incapacitantes, dores crônicas, doenças neurológicas, tumores malignos e AIDS.

Pode-se mudar o sentido

Entendemos o quanto é difícil sentir vontade de acabar com a própria vida ou mesmo ter pensamentos recorrentes sobre esta possibilidade. Muitas vezes a carga emocional pode ser grande demais e é importante dividir esse peso com alguém que seja de sua confiança ou através de serviços de suporte. O blog ouviu Pedro Sammarco, 44, psicólogo e voluntário do CVV. Ele, que também atende na ONG EternamenteSOU, nos conta um pouco mais sobre o impacto deste serviço gratuito para a população.

“Trabalho como voluntário no CVV há 22 anos. O CVV entrou na minha vida com o intuito de fazer um estágio, pois nessa época cursava psicologia e sigo até hoje. O CVV baseia-se nos preceitos do psicólogo norte-americano Carl Rogers (1902-1987) que possui uma visão humanista, visto que, deve-se crer sempre na capacidade de crescimento do outro e estabelecer confiança. No CVV temos que proporcionar um ambiente para que a pessoa possa se desenvolver, portanto, trabalhamos com aspectos como aceitação incondicional, compreensão empática, respeito e oferecemos abertura para comunicação. As pessoas ligam e falam sobre o assunto desejado e nós adotamos uma postura de não julgamento. Ressalto que ao falarmos em empatia é importante considerar que é o exercício da pessoa se colocar no lugar do outro, sendo o outro. A ligação no CVV, 188, é feita de forma anônima, sigilosa e gratuita. O intuito é que a pessoa possa desabafar e, por meio da fala, ela tem a possibilidade de se ouvir, organizar melhor as ideias e decidir seu caminho por si mesma. Essa é uma forma de prevenção, pois ao desabafar ela está impedindo que haja acúmulo de sofrimento que resulte no suicídio. Nós vivemos um período de vida muito dinâmico, estamos inseridos numa cultura na qual se cultua muito a imagem, onde a velocidade da informação é muito rápida e, muitas vezes, não temos tempo ou não queremos dar a atenção necessária a quem precisa. As pessoas que buscam esse serviço geralmente não se sentem ouvidas pelo seu círculo social ou são absolutamente sozinhas. Algumas preferem, inclusive, tratar deste tema com uma pessoa anônima. Em muitos casos a pessoa precisa apenas falar e ser ouvida, sem ser julgada, questionada ou aconselhada.”
Pedro Sammarco, psicólogo, voluntário cvv
Pedro Sammarco
psicólogo e voluntário CVV

Se precisar, peça ajuda

ONG EternamenteSOU: Serviço gratuito de atendimento psicológico para pessoas idosas LGBT.

Tel.: 11 95311-6781 

Centro de Valorização da Vida (CVV): 188 (ligação gratuita, 24h, todos os dias do ano) ou www.cvv.org.br

CAPS e Unidades Básicas de Saúde: Saúde da família, Postos e Centros de Saúde.

UPA 24H, SAMU 192, Pronto Socorro e Hospitais

Agradecimentos

Dr. César Carvalho, médico psiquiatra.

Contato: cesarhcs@gmail.com

Pedro Sammarco, psicólogo e voluntário CVV.

Contato: pedrosammarco@hotmail.com

Referências

Allan H. Ropper, M.D., Editor Suicide Seena Fazel, M.D., and Bo Runeson, M.D., Ph.D. N Engl J Med 2020;382:266-74. DOI: 10.1056/NEJMra1902944

Epidemiologia do suicídio -uma revisão de literatura – Rute Grossi, Edna Maria Maturano, Gerson Antonio Vansan

LGBTQI+ Youth and Mental Health: A Systematic Review of Qualitative Research Clare Wilson1  · Laura A. Cariola1 Received: 26 September 2018 / Accepted: 7 May 2019 / Published online: 21 May 2019 © The Author(s) 2019

Revista Eletrônica Acervo Saúde / Electronic Journal Collection Health | ISSN 2178-2091 REAS/EJCH | Vol.11(14) | e867 | DOI: //doi.org/10.25248/reas.e867.2019 Página 1 de 9 Comportamento suicida em minorias sexuais: prevalência e fatores associados 

Disponível em: <//setembroamarelo.com>. Acesso em 17 de agosto de 2020.  

Disponível em: <//www.scielo.br/pdf/cadsc/2019nahead/1414-462X-cadsc-1414-462X201900010211.pdf>. Acesso em 18 de agosto de 2020.

Disponível em: <//portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2017/setembro/21/Coletiva-suicidio-21-09.pdf>. Acesso em 18 de agosto de 2020.

Disponível em: <//www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3081186/> Acesso em 23 de agosto de 2020. 

Disponível em: <//www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-89102010000400020&script=sci_arttext>. Acesso em 18 de agosto de 2020. 


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