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Com a palavra: Neon Cunha

Publicado por Rafael Munduruca em

Iniciamos hoje uma nova série dentro do blog da EternamenteSou em que, de tempos em tempos, convidaremos pessoas que fazem parte da comunidade LGBT para escreverem sobre si ou sobre algum tema que os tocam em primeira pessoa.

Na coluna de estreia, aproveitando as manifestações do Dia Internacional da Mulher, celebrado anualmente no dia 8 de março, convidamos a ativista Neon Cunha para compartilhar suas impressões sobre o que é ser mulher.

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Neon Cunha. (Foto: Acervo Pessoal)

Eu gosto de ser mulher
Sonhar, arder de amor
Desde que sou uma menina
De ser feliz ou sofrer


Maria Bethânia

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Eu me reconheci menina quando tinha dois anos e meio de idade. Reconheci de afirmar mesmo, com a certeza que toda criança tem. Nunca tive dúvida de quem sou ou de quem me tornaria. Os adultos não aceitavam, ficavam buscando todas as formas de me anular, ou mesmo de me curar. Foi do exorcismo às inúmeras surras, até as sessões de terapia, hoje mantidas pelo meu livre desejo de ser cada vez mais eu mesma.

Cheguei aos 51 anos, e nessa trajetória de dores e alegrias existe algo que ainda me intriga: sou incapaz de chorar. Depois de tantas surras e humilhações entendi que o choro de nada adiantava, pois ele não era ouvido ou mesmo sentido por quem queria eliminar a mulher diante deles acima de tudo. Não os culpo, mas também não esqueço. A misoginia foi o primeiro ódio dirigido a mim, vinda em forma de ofensas desumanizadoras. Eram voltadas para a menina, depois para a pré-adolescente, até que ela parou de existir. Essa mulher tentou se tornar invisível para se proteger, mas era sempre, sempre detectada, seja pelo gestual, pelos movimentos, pela voz, por qualquer indício do que considerassem feminino.

Foram 34 anos até que a sujeita oculta se declarasse, bem alto e em bom tom, em letras impressas, letrinhas e pixels, que não mais se submeteria às imposições das normas de exclusão, preferindo a morte digna à negação da legitimidade da mulher que ela é.

E é preciso muita sede de vida para se tornar quem se é. Afinal, qual mulher não sabe, na profundidade do seu silêncio, a dimensão das dores e das delícias de ser quem se é?

Prazer eu sou Neon, mesmo, como a luz.

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Neon Cunha
Mulher, negra, ameríndia e transgênera questionadora da branquitude e cisgêneridade tóxicas. Uma das mais reconhecidas vozes da despatologização das identidades trans no Brasil e primeira mulher trans a denunciar violências na OEA (Organização dos Estados Americanos). Integra diversas iniciativas e espaços como ativista independente, dentre elas a Marcha das Mulheres Negras de São Paulo e como patrona da Casa Neon Cunha, espaço de acolhimento LGBTQI do ABC Paulista.


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