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Com a palavra, Mama Darling

Publicado por Rafael Munduruca em

A Drag Queen Mama Darling, em um de seus muitos carnavais. (Acervo Pessoal)

Para esta edição do “Com a palavra…”, série na qual convidamos LGBTs 50+ para escreverem ou relatarem ao blog temas, fatos ou memórias que lhes são caros, encontramos a oportunidade para escutar algumas memórias de Fernando Magrin sobre como este ator e jornalista chegou aos 51 anos e deu vida à Drag Queen Mama Darling.

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Minha vida de Drag Queen

Eu sou a Mama Darling, uma das fundadoras e organizadoras do Bloco MinhoQueens, um dos maiores blocos LGBTQIA+ da cidade de São Paulo.
Por trás da Mama, está Fernando Magrin. Formado em Artes Cênicas pela UNICAMP e Jornalismo pela PUCCAMP. Ex-executivo de uma grande companhia aérea, American Airlines.

2021, 56 anos de idade, aquariano, gay e Drag Queen.

Voltemos no tempo e vamos olhar pro Fernando criança. Definitivamente criança viada. Sim, existe criança LGBT+. A dificuldade com que as famílias lidam com isso, só complica mais e mais a cabeça da criança.

O pequeno Fernando Magrin. (Acervo Pessoal)

Desde muito pequeno, o universo feminino já me atraía mais que o masculino. No entanto, te fazem pensar que não é bem isso na vida cotidiana. Então a criança sofre. A dor de não se ver representado é grande. Não existe grau de sofrimento. Sofrimento é sofrimento.

Você se vê obrigado a agir e viver de uma forma que não é a desejada. Você se enxerga errado. Se culpa. Chora calado.

Até que sai de casa e conhece um mundo novo, no qual você se enxerga. Aconteceu assim comigo. Conheci a vida gay da cidade de Campinas. Paquera, encontros, namoros, a vida que eu queria.

Da cidade cosmopolita do interior para a metrópole foi um pulinho. E lá nos idos da década de 90, chego a São Paulo. A vida então se descortinava no seu mais amplo sentido. A carreira de ator, foi pra caixa ou pro armário. E me dediquei a uma carreira no setor aéreo, da qual me orgulho muito.

A vida de gay, um livro aberto. Para a família, continuava na página errada. Em 2012, após o falecimento do meu pai aos 69 anos, a família me tirou do armário, quando eu já estava com 47 anos de idade. Foi libertador.

Tudo parecia seguir seu caminho, trabalho OK, vida amorosa OK, mas a maquiagem ainda não!

Aos 51 anos de idade com a criação do MinhoQueens, me tornei uma Drag Queen. 51!!! Para mim, isso não tinha muita importância, afinal de contas, não achava nada especial em ter essa idade e virar uma drag. Aí descobri que para grande parte das pessoas, 51 anos de idade já é uma pessoa velha e que começar a fazer a arte drag, era motivo de espanto, surpresa, susto, sei lá!!

Fernando Magrin x Mama Darling. (Acervo Pessoal)

Então, percebi que isso ia além do estarrecimento de alguns, descobri que isso era inspirador para outro tanto de gente. E isso me fez acreditar mais e mais que precisava levar a mensagem de que não importa a idade, o importante é ser feliz! Apesar de parecer clichê, sonhos não envelhecem. O ator saiu do armário e deu vida à Mama Darling.

Tive a coragem de passar uma sombra mal passada, de borrar um batom, de colocar meias mal ajambradas no sutiã, de andar desajeitadamente em cima de saltos, de usar grandes perucas, de usar vestidos espalhafatosos. De me soltar como drag e descobrir a felicidade que isso me trazia.

Assim como me orgulho da carreira que tive no mundo corporativo, tenho um orgulho gigante da trajetória do bloco e da carreira da Mama Darling. Um bloco majoritariamente jovem e nele circular livremente na minha idade é algo que me deixa profundamente feliz.

Mama Darling comanda o Bloco Minhoqueens no carnaval paulistano. (Acervo Pessoal)

A arte drag me faz sentir a transgressão, a liberdade, o experimento, o prazer que isso tudo me dá é simplesmente divino e brilhante! Sempre digo que sou a mais nova drag velha da cidade. Poder atuar como Mama Darling me faz chegar à conclusão que meu outono da vida é e será uma eterna primavera.

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Fernando Magrin, mais conhecido como a Drag Queen Mama Darling, é ator formado em Artes Cênicas pela UNICAMP e Jornalismo pela PUCCAMP. Trabalhou como executivo de Novos Negócios da American Airlines por 24 anos, onde foi presidente do comitê Pride da Diversidade. Já participou de diversos eventos, entre festas e palestras corporativas. Além de fundadora do Bloco MinhoQueens, Mama Darling também conduz o Bloco da Mama que sai na terça de carnaval.


Rafael Munduruca

Profissional de Produção Cultural e Comunicação com extensa experiência em comunicação digital, projetos e arte e educação com foco em educação não formal. Voluntário em preservação e difusão da memória LGBTI+.

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