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Com a palavra, Alex Cerveny

Publicado por Rafael Munduruca em

Para esta edição do “Com a palavra…”, série na qual convidamos LGBTs 50+ para escreverem ou relatarem ao blog temas, fatos ou memórias que lhes são caros, encontramos a oportunidade para escutar algumas memórias do artista visual paulistano Alex Cerveny, em que traça um paralelo entre juventude e envelhecimento e as pandemias de HIV/Aids e Covid-19.

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No epicentro

Em algum momento na adolescência eu ouvi dizer que Santa Cecília e Vila Buarque juntas, eram o epicentro gay da América Latina, com a maior concentração de invertidos por metro quadrado do continente. Eu me lembro ainda nos anos oitenta, da rua Marquês de Itú, comprovando isto completamente congestionada e com dúzias de rapazes dando pinta, encostados nos capôs dos carros, estacionados em frente a uma sequência de casas noturnas, das quais apenas o lendário HS (ou Homo Sapiens) rebatizado de ABC-Bailão, ainda permanece.

O Alex Cerveny de 20 anos. Foto: Acervo pessoal do artista.

Mudei me para a mítica região no início dos anos noventa, que àquela altura já estava despojada de sua alegria por causa da devastadora pandemia da Aids. E a primeira pandemia a gente nunca esquece, não é? Não apenas os bares da Marquês de Itú fecharam. No período de alguns anos, até a chegada definitiva do coquetel, morreu tanta gente! No universo das artes, onde atuo, foi particularmente devastador. Digo particularmente, porque artistas em geral são pessoas públicas, que adoecem e morrem publicamente, como foi o Lauro Corona, o Strazzer, a Sandra Bréa, o Cazuza, o Leonilson, o Keith Haring, o Henfil, o Renato Russo, o Fred Mercury e tantas outras criaturas geniais. Pois que ninguém se iluda: morreu igualmente, só que de forma mais silenciosa, uma legião vinda de todas as áreas profissionais, incluindo amigos queridos, ex-namorados, vizinhos e muita gente próxima, que foi varrida da face da terra enquanto o jornal publicava ano após ano, diariamente, manchetes desoladoras sobre o assunto. Comparada com a nova pandemia, tudo foi muito mais lento e carregado de um cruel estigma moral. Mas ao cabo, graças aos gigantescos esforços mundo afora e exemplarmente no Brasil, as notícias passaram a ser melhores, e depois, realmente promissoras.

Logo que me mudei para o edifício, encontrei no elevador a Odetta, a vizinha do 42. Uma loura alta e classuda, ainda nos seus 70 e tantos anos. O silêncio da descida foi perturbado por algo caído no tapete. Batata! Quando ela saiu, encontrei seu bracelete de ouro-velho no chão. No que a chamei, ela surpreendeu-se e agradeceu delicadamente com seu sotaque arrastado. Desconfiei que foi tudo de propósito, uma cantada de uma mulher visivelmente mais experiente que o frangote em questão. Passamos a nos dar bon jour, depois que ela me viu recebendo um amigo Belga. Viúva, me contou que vinha de Alexandria, e que depois da revolução no Egito, refugiou se primeiro na Itália, e depois, quando o marido Edmond, igualmente egípcio, conseguiu também seu visto, vieram parar em Santa Cecília.

Falava o italiano de berço. O francês e o inglês oficiais da escola. E das ruas entendia bem o árabe, ao qual respondia em francês durante as sessões semanais de carteado, com suas amigas sefarditas de Higienópolis. Nossas conversas de elevador, rápidas e cordiais duraram até quando foi encontrada morta, caída na sala aos 91, pela Alegra, sua mais fiel amiga do bridge.

Odetta era para mim um exemplo de independência. Uma vez por semana apenas, tirava da garagem seu Corcel II bege para ir ao carteado na avenida Angélica. Mesmo na desordem dos últimos dias, sua vaidade permaneceu intacta em meio ao caos. Deixou o tailleur favorito arejando no cabide e um banheiro impecável, muito bem abastecido de cosméticos. Vasculhando inutilmente sua agenda em busca de algum parente, encontrei apenas a receita do loiro impecável que auto aplicava nos cabelos, uma verdadeira Dalida longa-vida!

Na imagem, Iolanda Cristina Gigliotti, mais conhecida como Dalida, famosa cantora e atriz egípcio-francesa com a qual Alex associava Odetta. Imagem: Cena do filme The Sixth Day.

Assim como Odetta, outros vizinhos menos longevos, mas igualmente repletos de histórias já se foram. E eu tornei me um veterano no prédio e no bairro, até que em março do ano passado eu fui enxotado do meu adorado apartamento pela nova e terrível onda pandêmica. Desta vez a coisa veio rápido e é para todos. E sem aquele papo-furado de grupo-de-risco. Trata-se de algo tremendamente mais contagioso e voraz. Como Odetta em tempos difíceis, achei prudente me refugiar em outras terras, num lugar rural, pois não deu certo para mim passar os dias trancado só com minhas samambaias. Minha vida antes se arejava pelas redondezas e contava com a cordialidade matinal das meninas do café da Alameda Barros e com a mesa bem posta dos variados botecos e “quilos”, para refeições verdadeiramente abençoadas. Mas ao contrário de Odetta, que desprezava a ideia de voltar ao Egito, eu já não vejo a hora de voltar a escutar o batuque de Santa Cecília.

Bem mais rápida que na primeira pandemia (que nem foi embora ainda!), a ciência e a solidariedade já estão na berlinda, encontrando formas de nos salvar ou nos confortar das mazelas da nova doença. Então não resta outra alternativa, é preciso apenas saber se cuidar e ter aquela paciência de Jó, de novo!


Rafael Munduruca

Profissional de Produção Cultural e Comunicação com extensa experiência em comunicação digital, projetos e arte e educação com foco em educação não formal. Voluntário em preservação e difusão da memória LGBTI+.

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