fbpx

Carnaval da memória

Publicado por Rafael Munduruca em

‘Tá proibido o Carnaval
Nesse país tropical
Está proibido o Carnaval
Nesse país tropical

Quem diria que os versos que abrem a canção-protesto Proibido o Carnaval, lançada por Daniela Mercury, ao lado de Caetano Veloso, no Carnaval de 2020 se tornariam as palavras de ordem no festejo de 2021. Seguimos vivendo a pandemia de covid-19, que apesar do lançamento das vacinas, que vem chegando lentamente aos braços dos profissionais na linha de frente no combate ao vírus e da população mais velha, ainda segue firme, colocando pessoas em risco ou tirando muitas vidas.

No entanto, “é preciso estar atento e forte”. Não é hora de deixar o samba morrer. Se não podemos ir para as avenidas, aglomerar e dançar juntos, como muitos gostamos, é hora de ativar a memória em busca das boas lembranças de outros carnavais. Enquanto você rememora suas marchinhas favoritas, lembra dos flertes e dos beijos demorados compartilhados nos salões de baile e recostura as fantasias inesquecíveis usadas para abrir alas nas ladeiras da folia, e também para apaziguar as saudades e a rivalidade dos carnavais do Rio e de São Paulo, compartilhamos com vocês as lembranças de duas foliãs, participantes da Eternamente Sou: Tetê Tauile, moradora do Rio de Janeiro, e Dora Cudgnola, paulistana da leste, contam sobre suas vivências de carnaval.

Diretamente Sapucaí, no Rio de Janeiro:
Tetê Tauile, 67 anos

“Deixa eu te contar, não sou muito carnavalesca não. Tenho um pouco de fobia de aglomeração, sabe? Muita gente, gente suada. Não acho nada agradável. Desde criança minha família me levava pra festinha de carnaval no clube e eu sempre suei muito. Aquilo sempre foi muito desagradável, sabe!? Eu nunca senti o carnaval… gostava de cantar, das musiquinhas. Sei todas as músicas de carnaval, marchinha, essas coisas, mas o contato não era agradável. O carnaval nunca foi uma coisa que eu desejava: ‘Ah, vai chegar o carnaval… que maravilha!’. Me lembro assim: muita fantasia, minha mãe fazia tudo muito elaborado… e a gente ia pra folia. Mas a partir do momento que eu pude escolher, já não ia mais ao carnaval. Procurava viajar, preferia acampar, sair do Rio, não ver o Carnaval.

Mas daí, com o passar da vida, adotei uma criança, uma menina, que por acaso é apaixonada por carnaval. E tudo o que ela queria, eu fazia. Eu levava, ensinava, ia atrás. E fui com ela ver o carnaval. Ela cresceu e se envolveu com os blocos de carnaval. Vários. Tocando, dançando, como porta estandarte, como dançarina dos blocos. E ela participa de muitos blocos, faz tudo que é curso a respeito de carnaval. Ela adora!

Tetê Tauile (à direita), ao lado de sua filha Janaína, após desfile na Sapucaí. (Acervo Pessoal/ Tetê Tauile)

Um belo dia, ela foi fazer um curso chamado Escola de Carnaval, que nada mais era do que uma preparação de uma escola de samba, dentro de um barracão, ensinando todas as etapas: fazer carro alegórico, fantasia e os adereços. E ela me disse: ‘Mãe, eu acho que você vai amar esse curso. Você adora artesanato, adora trabalho manual. E as pessoas lá são maravilhosas, você vai curtir fazer isso até mais do que eu, que não sou tão habilidosa’. E lá fui eu pro barracão. Na verdade, é o espaço de uma escola de samba mirim, daqui do Rio. Uma escola de samba enorme, chamada Acadêmicos da Grande Rio. E essa escola mirim chama-se “Pimpolhos da Grande Rio”. 

Já estou envolvida na ‘Pimpolhos da Grande Rio’ há quatro anos. O que a gente faz lá dentro? Todo o carnaval! Os carros alegóricos, os adereços, as fantasias, tudo dentro do barracão. E no final, quando já está tudo pronto, a gente vai pra Escola e prepara as crianças, mostra as fantasias pra elas, apresenta tudo o que a gente fez e aquilo é… é um orgasmo! É uma coisa maravilhosa… ver o sorriso daquelas crianças se vestindo, se maquiando, sabe!? É a coisa mais linda do mundo. 

No barracão da Grande Rio. (Acervo Pessoal/ Tetê Tauile)

Para a minha surpresa, coisa que eu não sabia que ia acontecer, toda terça-feira de carnaval a gente vai pra Avenida junto com as crianças para apresentar o desfile. Vamos pro sambódromo, na Marquês de Sapucaí, onde nunca imaginei que iria pisar na minha vida. Quando a gente pisa na avenida, e aquela criançada se solta é uma alegria muito grande, é a coisa mais gratificante que se tem na vida. Desde que eu fiz isso pela primeira vez, eu não consigo mais parar. 

Estou envolvida no carnaval mesmo não curtindo tanto a festa, e aquela coisa da aglomeração. Mas, nos bastidores, eu acabo fazendo o carnaval. E estando junto com as crianças, que é a coisa mais bonita que tem. Meu envolvimento com o carnaval é isso. Hoje, um dos momentos mais felizes da minha vida é dentro do carnaval infantil, das crianças. Dentro do barracão preparando, com as crianças, e depois na avenida. É um momento único…”

Da Leste, do Arouche, da Baixada e do Anhembi:
Dora Cudgnola, 68 anos

“Sempre participei do carnaval. Antes participava dos bailes em salões. Antigamente tinha mais salões, não tinha tanto bloco, nem nada. E você ia e dançava samba. Depois eu comecei a sair nas escolas de samba. Minha estreia foi na Primeira do Itaim Paulista. E eu amei. Depois eu saí na Unidos de São Miguel e no ano seguinte, em 1999, desfilei pela Leandro de Itaquera. Na escola de samba de Itaquera, eu amei e fiquei muito emocionada. Era uma homenagem a Paulo Freire (Patrono da Educação Brasileira). Foi uma experiência maravilhosa. Sou professora, fui diretora de escola. Tenho muito amor por Paulo Freire. Então você pode imaginar como era a sensação de poder homenageá-lo na Avenida. Eu frequentava os ensaios nas escolas de samba, me fantasiava e ia pra avenida participar do desfile. 

Dora Cudgnola em plena avenida. E seu registro de um dos desfiles de Nenê de Vila Matilde. (Acervo Pessoal/ Dora Cudgnola)

Os primeiros desfiles que participei aconteceram na Avenida Tiradentes, no centro de São Paulo. Só anos depois que o Sambódromo foi inaugurado, ali próximo da Rodoviária do Tietê. O desfile pela Leandro de Itaquera já foi no Sambódromo do Anhembi, onde também desfilei pela Nenê de Vila Matilde. Quando participei deste último, eu morava na Vila Esperança, muito próximo do barracão da escola. Depois dessas experiências, não fui mais à Avenida, mas nunca deixei de ir assistir aos desfiles. Ia sempre, eu e minha filha. Sou muito apaixonada pela Vai-Vai, então procurava ir no dia e horário em que eles iriam desfilar. 

Entrei na Eternamente Sou no início de 2018. E logo depois que eu passei a participar da Eternamente Sou veio o Carnaval. E a ONG organizou um Baile de Carnaval no Cidadania de LGBTs (Centro de Cidadania LGBTI+ Luiz Carlos Ruas, que na época ficava localizado no bairro de Higienópolis, onde a Eternamente Sou realizava diversas atividades de acolhimento e convivência). O Rogério Pedro, presidente da Eternamente Sou, organizou ali este evento de carnaval. Foi lindo e maravilhoso. Pulei e dancei. Foi um momento em que você podia ver idosos e jovens LGBTs, pessoas de todas as idades, se divertindo juntos. Foi encantador, são lembranças maravilhosas, que carrego em minha vida. 

Dora Cudgnola (ao centro) acompanhada de amigos da Eternamente Sou, no Carnaval 2019. (Acervo Pessoal/ Dora Cudgnola)

No ano seguinte, em 2019, a Ong Banda do Fuxico organizou uma festa de carnaval no Largo do Arouche e nos convidou, a Eternamente Sou, para estar ali, com toda a segurança e acolhimento. E mais uma vez a gente dançou muito, tinha muita gente e foi muito bom. Em 2020, teve outro baile de carnaval também no Arouche, onde hoje é a Sede da Eternamente Sou, mas neste infelizmente não participei. Eu já estava me revezando entre São Paulo e Mongaguá e vim passar o carnaval aqui na praia. 

Não me apego à fantasia. Eu gosto de ir bem à vontade, confortável. Se pudesse, ia de maiô. Mas em São Paulo, não dá pra eu andar assim, ainda mais sendo idosa. Tenho 68 anos e ainda pego muita gente na faixa dos 30 anos. E eu amo a minha idade. Tinha medo de chegar nela. Para se ter uma ideia, quando completei trinta anos – sempre conto essa história – eu tinha uma psicóloga chamada Raquel Moreno, muito conhecida em São Paulo. Eu, tão desesperada por completar 30 anos, invadi o consultório dela aos prantos. Ela estava atendendo outras pessoas. Mas eu, muito educada que sou – você conheceu a Dercy Gonçalves? Sou igualzinha a ela! Muito educada! (aos risos) – entrei chorando. A Raquel pediu que as pessoas fossem embora para que ela pudesse me atender, ela viu que eu estava desesperada. Desesperada por estar, naquele dia, completando 30 anos. Quando eu lembro disso, me pergunto: precisava daquele escândalo? Hoje, a cada dia, a cada ano que eu passo, eu me alegro. Eu deveria chorar agora? Não! É maravilhoso. 

Dora Cudgnola (à esquerda) e Rogério Pedro, ao centro, com amigos da Eternamente Sou, no Carnaval 2019. (Acervo pessoal/ Dora Cudgnola)

O Carnaval sempre me chama muito a atenção. É um momento de alegria. Você solta tudo… libera qualquer tristeza e exorciza os sentimentos ruins. Eu, do começo ao final, estou dançando e suando. Eu não sento. Eu não sento! Posso até estar arrastando os pézinhos, mas não dá pra ficar parada. Você pode perguntar pra minha filha. Ela não é animada como eu, e fica impressionada. É jovem e fica lá, sentada. Eu sambo! Sambo desde quando eu chego na avenida até a última escola passar. Vou tomando a minha cerveja e me divertindo. O carnaval é isso, é você se soltar!”

_______________

E você, está saudoso? Quais são suas melhores lembranças de carnaval? Compartilhe seu relato e sua fotos no Instagram e marque o perfil da Eternamente Sou (@eternamente.sou) para que possamos conhecer suas histórias.


0 comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *